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Textos de opinião, análises e revisões de artigos científicos, orientações de redução de danos & relatos de experiências.
Revisão de artigo científico
Ayahuasca e a apropriação farmacêutica.
Texto: Karine Bianca – PhD em Ciências (USP) e cocriadora do Instituto Ciência Nativa.
Nos últimos tempos a investigação biomédica acerca dos potenciais benefícios terapêuticos da Ayahuasca tem experimentado um notável aumento. Alguns estudos já indicam o potencial deste chá em relação a várias condições psicológicas, como, por exemplo, a depressão. No entanto, é fundamental observar que as comunidades indígenas já vêm utilizando as diversas combinações de plantas que compõem a Ayahuasca há milênios, para tratar uma vasta gama de enfermidades, sejam físicas, psicológicas ou espirituais. A maneira como a pesquisa farmacológica tem conduzido esses estudos merece uma atenção especial, principalmente no que diz respeito à metodologia e à questão da injustiça epistemológica em relação aos povos indígenas.
O neurocientista Eduardo Schenberg (PhD e diretor do Instituto Phaneros) e o advogado Konstantin Gerber (PhD) publicaram, em 2022, um artigo que lançou questionamentos sobre os métodos empregados nessas pesquisas e alertaram sobre o direito dos povos indígenas à Ayahuasca como parte de seu patrimônio biocultural. O artigo é rico e recomendamos a leitura completa, mas resumimos aqui alguns pontos importantes levantados pelos autores para que você compreenda melhor essa questão.
Povos originários X Mercado farmacêutico
A corrida farmacêutica para obter a aprovação do uso de substâncias presentes na Ayahuasca está acelerada. É evidente que, em um mundo onde se estima que 6% da população sofre de algum grau de depressão (com projeções de aumento substancial até 2030), a aprovação com base científica para tratamentos psicológicos representaria um mercado altamente lucrativo. Mas será que essa corrida emprega metodologias assertivas para a pesquisa com a Ayahuasca? Há fortes evidências que não! Vamos entender…
As pesquisas farmacêuticas frequentemente excluem das pesquisas com Ayahuasca variáveis importantes que são partes essenciais da ritualística indígena, como cânticos, instrumentos musicais, dietas e jejuns, orações, sopros, períodos de privação social e sensorial e o uso de outras plantas de formas diversas. Além disso também excluem os efeitos subjetivos dos participantes, como as experiências espirituais, por exemplo. Cada comunidade indígena possui sua receita única para a preparação da Ayahuasca, variando as espécies utilizadas, a quantidade de cada planta e o tempo de cozimento. Já os farmacologistas geralmente analisam uma única substância em doses padronizadas, o que torna o estudo da Ayahuasca desafiador, já que a bebida contém um complexo e interdependente conjunto de compostos responsáveis por seus efeitos psicoativos. Sabe-se que algumas beta-carbolinas (compostos derivados do cipó de jagube) atingem o cérebro e podem desempenhar um papel fundamental na experiência de quem toma o chá. Mas dada a complexidade das moléculas envolvidas, a pesquisa se concentra na DMT (presente nas folhas da chacrona), deixando de lado outras moléculas.
A pesquisa farmacológica utiliza uma abordagem chamada padrão duplo-cego, na qual metade dos participantes recebe Ayahuasca e a outra metade recebe um placebo, mas ninguém, nem mesmo os pesquisadores, sabe quem recebeu o quê. Para evitar que os participantes identifiquem o que estão ingerindo, o sabor do chá é disfarçado ou ele é solidificado e posteriormente encapsulado. Devido às características únicas dos efeitos da Ayahuasca, claramente a abordagem de padrão duplo-cego é inadequada. Os sintomas são frequentemente reconhecidos pelos participantes, comprometendo a cegueira da pesquisa. É importante ressaltar que esse padrão é amplamente empregado para testar medicamentos convencionais, mas a singularidade da Ayahuasca exige uma reavaliação da metodologia de pesquisa.
A busca da comprovação do uso da Ayahuasca para tratamentos psicológicos pode reforçar a credibilidade nos conhecimentos ancestrais, esperando que o mercado farmacêutico endosse o uso terapêutico do chá. No entanto, também revela o preconceito original da própria biomedicina, que só agora reconhece um potencial já há muito tempo conhecido e reivindicado pelos povos indígenas. Assim, a indústria farmacêutica enfrenta um grande desafio relacionado à apropriação do uso terapêutico cultural.
Uma estratégia harmoniosa seria que a indústria farmacêutica caminhasse de mãos dadas com as tradições indígenas e que os dados para pesquisas fossem coletados durante as cerimônias, seguindo e respeitando os métodos tradicionais e considerando os conhecimentos dessas comunidades, bem como todos os elementos rituais, incluindo outras moléculas presentes no chá. Além disso, seria crucial que os recursos gerados a partir desse conhecimento cultural fosse direcionados às comunidades indígenas.
Referência:
Schenberg EE, Gerber K. 2022. Overcoming epistemic injustices in the biomedical study of ayahuasca: Towards ethical and sustainable regulation. Transcult Psychiatr, 59(5): 610-624. doi: 10.1177/13634615211062962
Orientação de redução de danos
Rapé: riscos e redução de danos.
Texto: Lucas Cruz – Mestre em Neurociências pela PUC-Rio e pesquisador em substâncias psicodélicas e psicoativas.
O rapé é uma substância feita a partir da trituração de tabaco e outras plantas, como ervas e cinzas, utilizada por diversos povos indígenas em rituais e cerimônias, bem como em contextos urbanos (neoxamânicos e afins). Embora seja uma prática tradicional e culturalmente importante, apesar de seus benefícios, o uso de rapé pode apresentar riscos à saúde se utilizado incorretamente, por meio da exposição ao tabaco. A redução de danos é uma abordagem que busca minimizar os riscos associados ao uso de substâncias, incluindo o rapé.
Para explicar o que ocorre em detalhes em nosso organismo, é preciso entender o que ocorre em nosso cérebro ao utilizarmos esta substância. O uso do rapé é capaz de ativar o circuito dopaminérgico do cérebro, que é estimulado quando utilizamos substâncias que nos dão a sensação de prazer – justamente pela ativação deste circuito.
Vejamos em detalhes como isso ocorre!
O tabaco contém nicotina, que é uma substância psicoativa que pode afetar a liberação de dopamina no cérebro. A dopamina é um neurotransmissor associado a sensações de prazer, recompensa e motivação, e seu sistema de liberação está envolvido em várias funções cerebrais, incluindo a regulação do humor, do comportamento e da cognição. Quando a nicotina do tabaco é inalada através do uso de rapé, ela se liga a receptores específicos na região do cérebro conhecida como sistema de recompensa, que está envolvida na liberação de dopamina. A liberação de dopamina pode levar a sensações de prazer, o que pode aumentar o risco de dependência do tabaco.
Com base em experiências individuais e coletivas e em materiais gráficos do coletivo de redução de danos “PreParty”, veja a seguir algumas sugestões sobre o uso do rapé.
- Prefira rapés mais finos, isto é, mais triturados. Os rapés mais espessos podem atrapalhar a absorção da substância e deixar mais resíduos no nariz, o que pode levar a ferimentos na mucosa, a qual cumpre um papel de proteção importante.
- Aplique o rapé no alto da passagem do nariz para reduzir a quantidade de substância agarrada no nariz, diminuindo a irritação e os danos no septo.
- Após utilizar a substância, assoe e lave o nariz para remover resíduos.
- Não use rapé antes de dormir, pois isto pode obstruir as vias nasais e afetar a qualidade do sono.
- Não utilize o rapé quando estiver ansioso ou com a pressão sanguínea desregulada pelo risco de aumento da frequência cardíaca.
- Além disso, é importante que seu uso de rapé ocorra de forma consciente e intencional, em momentos pontuais e em um ambiente tranquilo.
Há algum tempo venho pensando sobre o quão consciente eu realmente estou em relação ao meu uso de rapé. Há uma frase bastante útil para se compreender o que pretendo dizer com este texto, que afirma que “A diferença entre uma medicina e um veneno é a dose”. Esta é uma citação atribuída a Paracelsus, um médico, alquimista e filósofo suíço do século XVI.
Uma observação importante que eu também gostaria de trazer é que embora haja relatos de pessoas que deixam de fumar cigarros com o uso de rapé, é importante lembrar que esta alternativa não é completamente livre de riscos. No entanto, pode ser uma alternativa menos prejudicial (uma vez que no rapé não encontramos o alcatrão ou outras substâncias tóxicas presentes no cigarro). Mas antes de tentar utilizar o rapé como uma alternativa para parar de fumar, é altamente recomendável buscar acompanhamento médico e orientação adequada.
Outra observação é sobre o rapé Katsarau. É dito que o Katsarau é uma alternativa de rapé sem tabaco, o que poderia nos levar a acreditar que esta seria uma medida perfeita de eximir qualquer dano na utilização do rapé. No entanto, ainda não há evidências científicas que comprovem que o Katsarau seja mais indicado para reduzir os danos do uso de rapé em comparação a outros tipos de rapé. Como acontece com todos os tipos de rapé, o uso do Katsarau pode ter riscos e efeitos colaterais, incluindo danos ao sistema respiratório, irritação nasal, dor de cabeça, tontura e náusea.
Complementando a frase de Paracelsus utilizada para abrir este texto, eu diria que além de moderar a dose, podemos nos beneficiar melhorando o nosso intento, para que não (mais uma vez) transformemos tudo em prazer e vício. Este não é o propósito das medicinas da floresta.
Se você costuma fazer uso de medicinas da floresta, é importante questionar-se sobre como e por que faz uso delas. Algumas pequenas mudanças de hábito podem ajudar a utilizar o rapé com mais respeito e sabedoria.
“[Quando] eu vou tomar um rapé, eu tenho que ter hora certa, no meu lugar certo. Eu tenho o meu propósito, cara. Eu vou pedir a Deus, né, à medicina, que eu sei que é criada por Deus. Me faça isso: ‘Limpa meu caminho. Eu tô com meu pensamento todo atrapalhado, então desbloqueia o caminho por onde eu vou andar, o caminho do meu pensamento.’ Então eu tenho que ter o propósito. Aí depois que tomar o rapé, vai tomar um banho. Você tem que também respeitar os seus momentos. Depois que você tomou um banho, você vai se deitar. Não come, não bebe, para que você tenha um bom sono, para receber a resposta do pedido que você fez. Então nós Yawanawá, a pessoa que leva a sério essas medicinas, tem esse propósito.” Pajé Kateyuve Yawanawá (disponível em @terradasararas)
Os efeitos do rapé nos oferecem diversos benefícios, mas, para isso, devemos tratar essa substância com o respeito que lhe cabe.
Referências:
Fowler CD, Turner JR & Imad Damaj M. 2020. Molecular Mechanisms Associated with Nicotine Pharmacology and Dependence. Handbook of experimental pharmacology, 258, 373-393. doi: 10.1007/164_2019_252
Passos EH & Souza TP. 2011. Redução de danos e saúde pública: construções alternativas à política global de “guerra às drogas”. Psicologia & Sociedade, 23(1): 154-162. doi: 10.1590/S0102-71822011000100017
